Escrito por Mariana.
“O curioso sobre a esperança é isso: ninguém além de você pode decidir se você vai senti-la. Essa escolha é sua.”

Três estrelas globais do K‑pop, Rumi, Mira e Zoey, formam o grupo Huntr/x. Na superfície, brilham nos palcos; nos bastidores, são caçadoras de demônios que usam suas músicas para fortalecer uma barreira mágica chamada Honmoon, que protege o mundo de criaturas espirituais malignas. Tudo muda com o surgimento da ambiciosa boy band rival, os Saja Boys, que escondem um segredo profundo, liderados por Jinu, planejam drenar a energia dos fãs e destruir a barreira. Enquanto lutam para proteger os fãs e a barreira, Rumi revela um segredo junto com um mal presságio.
“Em todas essas culturas a música surge principalmente como um artifício religioso. […] A base da música sempre foi espiritual” explica o cantor e compositor Jackie X em seu vídeo Gospel VS Kpop: A Superficialidade da “Arte”. Isso não é diferente em Kpop Demon Hunters, logo na introdução do filme nós temos a explicação do que são essas Hunters: na cultura tradicional coreana, as mudang (ou xamãs) são figuras espirituais, geralmente mulheres, que canalizam canções e danças ritualísticas para expulsar maus espíritos, curar doenças e restaurar o equilíbrio. O trio Huntr/x, ao usar música como arma espiritual, é uma releitura contemporânea dessas figuras.
O trio simboliza uma ponte entre o antigo e o novo. Com suas músicas encantadoras e danças coreografadas, elas atualizam as tradições espirituais coreanas para um cenário moderno. Não é apenas sobre “ídolos salvando o mundo”, mas sobre cultura, fé, identidade e herança sendo preservadas e transformadas.
Além de todo o significado cultural que existe por trás desse trio, também podemos notar uma clara crítica à indústria do Kpop através de metáforas no decorrer do filme:
- A “dupla identidade” como metáfora do idol e da pessoa real: O trio Huntr/x vive duas vidas: de dia, são ídolos perfeitos; de noite, caçadoras de demônios, lidando com traumas, medos e dilemas pessoais. Isso representa a dissociação entre a imagem pública e a vida real dos idols, que precisam esconder seus sentimentos, dores e identidade para manter uma fachada idealizada.
- A voz perdida de Rumi como símbolo de burnout e esgotamento: Rumi começa a perder a voz, sua principal ferramenta como artista e caçadora. Isso simboliza o burnout físico e mental que muitos idols enfrentam e a dor de perder a capacidade de se expressar livremente, algo comum numa indústria que controla cada aspecto da imagem e da performance dos artistas.
- Censura emocional e repressão de identidade: Há momentos em que Rumi e outros personagens são pressionados a esconder seus sentimentos, especialmente raiva, tristeza e dúvida. Isso representa a cultura de repressão emocional no K-pop, onde idols são treinados a sempre sorrir, não demonstrar fraqueza e evitar qualquer comportamento que prejudique a imagem do grupo.
- A estética perfeita como armadura: O figurino, os palcos e os clipes são impecáveis, visualmente fascinantes mas servem como uma espécie de armadura para esconder a dor das protagonistas. Isso representa o uso da estética como máscara emocional na indústria pop: o visual encanta, mas esconde realidades pesadas.
KPop Demon Hunters é um filme que transforma crítica social em fantasia pop. Ele denuncia a indústria K-pop como sistema tóxico com exploração, silenciamento e desumanização e propõe, por meio da arte e da música, a libertação através da verdade, da vulnerabilidade e da coragem de ser imperfeito.
Esse filme quebrou todas as 0 expectativas que eu tinha com ele, se revelou um filme extremamente profundo e com músicas muito boas, resumindo: 11/10 a nota dele.