Escrito por Gabriel.
Todo Mundo Em Pânico está programado pra voltar aos cinemas em 2026 com seu mais novo filme dando continuidade a uma das franquias de comédia mais relevantes da atualidade, e com isso eu só consigo pensar em que conteúdo vão trazer dessa vez, afinal, o último filme não foi muito bem recebido pela repetição e previsibilidade, mas e quando tudo começou, como era?

Então, expandindo um pouco mais além de Todo Mundo Em Pânico, a diversão com o absurdo pode vir de muitas formas. A ficção constantemente se vê como uma fuga do nosso mundo, com filmes de herói, terror, ação, qualquer coisa que nos apresente uma história diferente da nossa para conhecermos, é como ouvir as histórias de um avô, é confortável, é agradável. Já quanto aos filmes trash, eles são tipo a história de um avô que diz que matou o chupa cabra com as próprias mãos, mas temos que reconhecer, é difícil encontrar algo tão belo quanto os trashs, isso mesmo, belo, por mais que geralmente tenham uns efeitos bem toscos pra falar a verdade. Acontece que no meio de tantos filmes e mídias que são inteligentes, com roteiros complexos, explicações demoradas e lições de moral, sinceramente, as vezes é muito bom um entretenimento burro, entende o que eu quero dizer? Só desligar o cérebro e aproveitar atuações toscas, efeitos ruins e atuações medianas sem precisar se preocupar se a nota do filme é boa, é uma simplicidade, é bom ver algo tão absurdo sem precisar de desculpas, é a beleza dos filmes trash, e sua arte… Escondida? Relativa? Enfim, é arte, a arte tá lá, em algum lugar que nossos cérebros sinceramente não entendem.
Popularizado nos anos 80, o subgênero trash provavelmente surgiu por volta daquele ano, porém sua origem pode variar muito dependendo de pra quem você perguntar, porém o primeiro candidato a ser criado foi o filme Robot Monster, de 1953, cuja trama consiste em um robô com corpo de gorila que quer exterminar a humanidade, e quem representa os humanos, a família de um cientista e seu assistente de laboratório. Pra não narrar o filme todo, o robô se apaixona por uma das filhas do cientista e o líder dos robôs usa um raio da morte que traz de volta a terra lagartos pré históricos. Tá vendo onde eu quero chegar? Os filmes trash supostamente estão conosco a muito tempo, isso porque seus roteiros parecem algo totalmente improvisado, feito de brincadeira e com roteiristas que não se entendiam, então, qualquer filme com um roteiro absurdo e exótico é considerado trash? Não exatamente, veja bem, ter um roteiro fraco é uma coisa, esses são os filmes com notas baixas no imbd, agora não se levar a sério e satirizar outros filmes do gênero, isso, sim, é um filme trash, e isso diferenciou Robot Monster de outros filmes horríveis da época, o não se levar a sério.
O romancista Stephen King inclusive tem certo carinho pelo filme e alega que é um dos melhores filmes terríveis já feitos, isso porque ele cumpre o que promete, entretém, hoje em dia é mais comum ver filmes como Todo Mundo Em Pânico em que podemos aproveitar de algo que seria o entretenimento burro, no entanto pra época, anos 50, obviamente não havia muito espaço pra brincadeira, mesmo no pequeno estúdio de Hollywood onde Robot Monster, um filme B, foi criado e viu a luz do dia, só o fato dele ter saído para os cinemas já é um feito impressionante se pararmos pra pensar.
Voltando agora a Todo Mundo Em Pânico, existem mais exemplos de filmes trash que deram certo? Bem, claro, um que tem referências espalhadas por ai é um cult de 78, O Ataque Dos Tomates Assassinos, a história, bem, tomates começam a matar as pessoas, tem até uma cena bem engraçada em que um cara disfarçado entre eles, não me pergunte como, entrega o disfarce quando come um cachorro quente e pergunta se alguém pode passar o ketchup, mas num geral, é um bom filme, sabe, não vou comparar nem avaliar com base em Interestelar, mas é um bom filme, com até uma referência a Tubarão logo no começo e também com uma menção bem honrosa e sinceramente que me aquece um pouco por dentro ao filme Os Pássaros, de Hitchcock, e como todos riram até o ataque de pássaros que aconteceu em 75, não estou dizendo que tomates mutantes gigantes vão atacar a humanidade, mas é um exemplo da inspiração de um trash em outro, por mais que Os Pássaros seja um suspense do mestre Hitchcock, ainda era um roteiro considerado absurdo e ridículos pra época, mas com uma rápida pesquisa é fácil perceber que a maioria desses filmes tem um gênero em específico, são os filmes de terror, que sendo trash, ironizam, usam clichês ao seu favor e a estética de improvisado acrescenta muito ao gênero, tipo, quando me vem filme de terror anos 60 a 80, a gravação com aspecto de suja, feita as pressas, de má qualidade, isso pra mim é um atrativo do gênero e o primeiro filme que vem em mente, com certeza, o impossível de confundir Evil Dead, ou Uma Noite Alucinante como chegou aqui no Brasil, ou A Morte Do Demônio, melhor ainda, já que cada filme da franquia tem um nome, mas fiquemos com Evil Dead que é bem melhor. O primeiro deles começou como uma produção séria de baixo orçamento, por isso é debatível se pode ser considerado trash, mas no emocional das pessoas e status cult, é sim, com efeitos exagerados e filmagem de baixa qualidade mas com um roteiro conciso e honestamente bom, influenciando na criação de filmes de terror e clichê que vemos até hoje, o segundo filme porém teve muito mais investimento pelo crescimento do estúdio, deixando de ser uma produção de baixo orçamento e abraçando agora o exagero e o ridículo, sendo o filme responsável por popularizar a franquia. Exageros e ridículos em um filme de terror, tá vendo onde quero chegar?
O conceito de filme trash é muito ambíguo e sinceramente, até pouco definido. Enquanto o consenso é que é um filme de baixo orçamento, geralmente um filme B, com efeitos exagerados, atuação ruim e gravação de baixa qualidade, o filme Quarteto Fantástico da Marvel por alguns críticos é considerado trash, pode ser algo que só um ou outro achem, mas é um exemplo de como esse conceito é abrangente, nesse caso, pelo roteiro absurdo, efeitos cômicos mas que hoje tem um charme e recepção abaixo da média pra um estúdio grande como a Marvel, e se eles podem ter um filme trash, porque um não pode se tornar uma franquia grande? A respeito de Todo Mundo Em Pânico, o primeiro filme, de 2000, é farinha do mesmo saco de Evil Dead, atuação, efeitos, filmagem, até o orçamento de 19 milhões, minúsculo perto de grandes produções, é um perfeito exemplo de quem se inspirou em sucessos do terror, como Scream, Sexta Feira 13, O Sexto Sentido, e sinceramente é só abrir a sessão de referências desse filme na wikipedia pra ver como os criadores souberam usar suas referências, tem referência até a Matrix e Pulp Fiction, e nisso ele deu um retorno de 270 milhões de dólares, pra provar que o entretenimento, a “fantasia”, não precisa ser complicado, entende?
Mas se é assim, os filmes vindos depois do sucesso ainda são trash? Sim, exatamente o ponto aqui, o filme trash é um sentimento, uma ideia, e portanto uma produção com um sucesso já praticamente garantido como o quinto filme da franquia ainda é considerada uma franquia desse subgênero de filme, porque ela se esforça pra não ser levada a sério e isso a faz ser classificada até junto de filmes ridículos e bons como Sharknado e Velocipastor, só que sendo tipo um primo bem sucedido.
E essa é a magia dos filmes trash, sinceramente, não tem muito o que falar, o conceito é simples, ser ridículo e ter um roteiro que parece não querer dar certo até, mas é indiscutível a personalidade do DIY, ou “Do It yourself”, faça você mesmo, em português, é um dos norteadores do trash, sabe, baixo orçamento, efeitos geralmente bem feios e gravação de baixa qualidade, quando se fala assim, parece realmente que quase qualquer coisa quando começa é trash, como a franquia Extermínio que voltou aos cinemas recentemente, e manteve um pouco dessa fórmula DIY, sempre gravando da câmera de um iPhone durante três filmes inteiros, e deu incrivelmente certo, o que só me faz pensar em uma coisa, com um roteiro bom, certamente qualquer coisa pode dar certo, pode ser até por não ser sério de verdade e ser claramente uma produção amadora, mas com personalidade o suficiente, as pessoas vão amar por conta disso, ao contrário de produções de orçamentos estratosféricos que se apoiam em fórmulas e clichês cansativos mas minimamente lucrativos pra extrair até o último pingo de dinheiro ao invés de se arriscar e fazer algo novo.
Com o retorno de Todo Mundo Em Pânico, esperamos ver um pouco mais de ousadia, claro que com 6 filmes de uma mesma franquia e gênero é mais difícil inovar, mas é bom sempre trazer algo de novo pra não cair nos clichês de forma negativa, mas essa é uma franquia que certamente merece uma chance, e estou ansioso pro lançamento, esperando um sucesso que nem nos primeiros filmes, talvez eles resgatem um pouco essa “inocência” do baixo orçamento, ou talvez não, e Todo Mundo Em Pânico acabei por se tornar uma franquia afogada em capitalismo, destinada a ser espremida por cada centavo com repetições terríveis, e esse seja o fim, mas vamos esperar pelo melhor, e na pior das hipóteses simplesmente teremos que procurar mais mídias trash pra ocupar nossos cérebros idiotas com entretenimento burro e inocente, opção não falta e eu, como um bom apreciador de não ter que pensar, aprovo e recomendo cada uma delas.